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Conheça o preparador de goleiros que usa “escola brasileira” para formar talentos na Indonésia

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Conheça preparador de goleiros que usa “jeito brasileiro” para criar talentos na Indonésia
Para realizar o sonho de trabalhar com futebol, o mineiro Fábio Guedes resolveu se jogar no mundo. Há dois anos, o preparador de goleiros trocou a carreira em crescimento no Brasil pelo desafio de formar jogadores na Indonésia, um país que não disputa a Copa do Mundo há quase um século e que tem o badminton como febre nacional.
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Fábio Guedes é preparador de goleiros do Bornéo
Rino Akhmad Cahyadi
Fábio trabalha há dois anos no Bornéo FC Samarinda, equipe da ilha de Bornéu que tem ganhado espaço no futebol do Sudeste Asiático. O time teve jogadores brasileiros no elenco nas últimas temporadas, como o atacante Douglas Coutinho, ex-Athletico e Cruzeiro, e o zagueiro Cleylton, ex-Grêmio e Chapecoense.
Do outro lado do mundo, o profissional tem ajudado a criar uma “revolução” na formação de jogadores no país. Em entrevista ao ge, Fábio compartilhou como é o trabalho em Bornéu e explicou que trabalha para implementar aspectos da escola brasileira de preparação de goleiros no clube.
— Quando eu recebi esse propósito para sair do Brasil e ir para a Ásia mostrar o que é um treinamento de goleiro, o que é a escola do goleiro brasileiro, foi um marco muito grande na minha carreira. No Brasil, a gente trabalha desde a técnica à resolução de um problema dentro do jogo, a questão do improviso. A gente consegue montar cenários de treino muito parecido com o jogo, sempre temos algo a mais nessa função — explicou.
“Eu me sinto muito realizado, porque quando a gente vê o caminho, a trajetória, a gente traça uma linha e vê o que a gente conseguiu construir. Cada goleiro que passa a mão na mão, cada evolução, a gente vê que está no caminho certo”.
Na entrevista, o brasileiro também compartilhou os perrengues que viveu por conta do choque cultural. Ele ainda destacou o comprometimento dos atletas indonésios como uma das forças do país, comentou sobre as chances de ver a Indonésia em uma Copa do Mundo e revelou o sonho de formar um goleiro de alto nível no futebol internacional.
Fábio Guedes é preparador de goleiros do Bornéo
Rino Akhmad Cahyadi
Sonho de ser jogador
Como muitas crianças brasileiras, Fábio tinha o sonho de ser jogador profissional de futebol. Goleiro na base, ele passou pelos times juvenis de Uberaba e Nacional. No entanto, a baixa estatura fez com que o então atleta recebesse poucas oportunidades, e ele optou por trocar os rumos da carreira e se dedicar à preparação de goleiros.
— Eu vi que não ia conseguir chegar no estágio onde a gente imaginava, como toda criança sonha. Eu decidi ser realista comigo, estudar e ingressar no estágio de alguma comissão para aprender a fazer o que eu faço hoje, que é trabalhar com goleiros — contou Fábio.
Já na nova função, Fábio passou por Olímpia, Votuporanguense, Ituano, Tubarão e Coimbra. Foi no Rio Branco de Americana, em São Paulo, que o mineiro ganhou visibilidade, graças ao título da Série A4 do Campeonato Paulista, em 2024. Preparado por Fábio, o goleiro do Rio Branco, Éder foi eleito o melhor da posição na competição.
Fábio Guedes campeão Paulista A4 Rio Branco de Americana
Redes sociais
O bom desempenho no Rio Branco chamou a atenção de uma figura lendária do futebol da Indonésia. Ex-jogador do Botafogo e dono de extensa carreira no futebol indonésio, o treinador brasileiro Jacksen Ferreira Thiago convidou Fábio Guedes para uma mudança radical de vida: ser preparador de goleiros do outro lado do mundo.
A proposta de Jacksen foi para compor a comissão técnica do Bornéu Samarinda junto a outros brasileiros, como o também preparador de goleiros João Gabriel. Após passar por um processo seletivo, o brasileiro foi contratado e mudou para a Indonésia em setembro de 2024.
— A ficha não caiu até o momento que eu fui para lá, quando coloquei o pé dentro do avião. Porque não fui só eu que concorri à vaga, foi o mundo inteiro. Você olha para trás e pensa que está indo de verdade para uma outra cultura, para um outro entendimento do futebol — afirmou Fábio.
“Nós brasileiros e sul-americanos carregamos o futebol com sangue. Eu fui para uma cultura totalmente diferente, para mostrar um pouco da nossa paixão, um pouco do nosso conhecimento”.
Fábio Guedes ao lado do Coach Jacksen, ídolo do futebol da Indonésia
Rino Akhmad Cahyadi
Choque cultural
Ao chegar à Indonésia, Fábio encontrou um cenário bem diferente do que o que estava acostumado no Brasil – e não apenas em relação ao futebol. Os costumes típicos do islamismo, religião predominante no país, surpreenderam o mineiro, que não esconde ter passado por alguns perrengues até se adaptar à cultura local.
“Eu nunca tinha visto mulheres de burca [peça típica do vestuário muçulmano que cobre todo o corpo das mulheres], nunca tinha visto tantas mesquitas, e eu tomei um baque”.
— Eu me lembro que, na primeira semana, quando eu estava dormindo, tocou uma sirene quatro horas da manhã para a primeira oração do dia. Como é uma cidade e um país totalmente diferente, achei que era algum aviso. Eu acordei e mandei uma mensagem para um amigo que foi junto comigo, e ele também estava assustado. A gente ficou dentro do quarto esperando, ficamos uma semana assim, com medo de perguntar. Até que um dia a gente perguntou para uma pessoa, e ela nos explicou que a sirene é para a primeira oração do dia. Eu pensei que era aviso de terremoto, procurava notícias para saber se tinha alguma ameaça. Mas hoje eu aprendi e entendi o porquê, e é muito interessante.
🔎 No islamismo, as orações obrigatórias, conhecidas como salat, constituem um dos cinco pilares da fé e devem ser realizadas cinco vezes ao dia: ao amanhecer (Fajr), ao meio-dia (Dhuhr), à tarde (Asr), ao pôr do sol (Maghrib) e à noite (Isha). Essas orações são uma forma de adoração e de fortalecimento da relação entre o fiel e Deus (Alá), sendo realizadas em horários específicos e voltadas em direção à cidade de Meca.
Fábio Guedes é preparador de goleiros do Bornéo
Rino Akhmad Cahyadi
Ainda segundo Fábio, a comida também foi um ponto de choque cultural para ele e outros brasileiros que se mudaram para a Indonésia.
— O primeiro contato foi desagradável, porque a gente comeu uma comida lá que tinha muita pimenta, mas muita pimenta. Até eu voltar com o paladar normal, demorou dois dias, porque a gente colocava alguma coisa na boca, vinha o sensorial da pimenta. Na nossa volta após as férias, a gente conseguiu alinhar com alguns brasileiros para levar 10kg de feijão, bacon, café. A gente faz isso pra gente ter um gostinho brasileiro lá do outro lado do mundo — revelou.
Revolução
Dentro de campo, no entanto, as barreiras culturais se dissolveram mais facilmente para o preparador de goleiros. Com o inglês em dia e aprendendo o Bahasa, idioma usado pela maioria dos habitantes da ilha de Bornéu, Fábio tem tido sucesso ao ensinar a escola brasileira de treinamentos para jovens talentos na Indonésia.
— Quando eu cheguei lá, eu via os goleiros muito atenciosos, com muita vontade de querer aprender, porém não tinha quem ensinar como é o gesto correto, a técnica correta. O primeiro contato que eu tive com eles foi para explicar que estava levando uma cultura totalmente diferente.
“No Brasil, a gente nasce com o dom, nasce com uma bola do lado do travesseiro. Eles começam a gostar de futebol lá pelos seus 12, 13 anos, então perdem esse período da psicomotricidade, do desenvolvimento corporal, e para inserir isso, demanda tempo”.
Fábio Guedes é preparador de goleiros do Bornéo
Rino Akhmad Cahyadi
— A questão de respeito deles, de intensidade de treino, de querer aprender, é uma coisa muito absurda. Quando a gente olha pra eles, pensa que se estivessem no Brasil, com a qualidade que o brasileiro tem, a gente conseguiria fazer atletas a nível maior do que a gente produz no nosso país — acrescentou.
Com o badminton como esporte nacional, a Indonésia não disputa uma Copa do Mundo desde 1938, quando ainda era conhecida como Índias Orientais Holandesas, sob controle dos Países Baixos. Na ocasião, a seleção foi goleada pela Hungria por 6 a 0 e não voltou mais à competição.
Para Fábio, o país asiático tem condições de voltar ao principal nível do futebol internacional, desde que aproveite a vontade dos atletas e invista ainda mais nos jovens talentos.
— Eu creio que o segredo está na categoria de base, que tem muitos potenciais talentos, mas não tem um devido treinador. Os atletas querem aprender, gostam de evolução, de desafios. Se tivesse treinadores estrangeiros trabalhando dentro dessas equipes, eu tenho certeza que o futebol seria muito mais desenvolvido — afirmou Fábio.
“Hoje, o Bornéu FC não contrata nenhum goleiro estrangeiro porque eles acreditam nessa metodologia da evolução dos goleireiros, desde a categoria de base até a entrada no profissional”.
Outro ponto favorável ao crescimento da Indonésia, segundo Fábio, é a paixão crescente pelo futebol. O aumento no interesse pelo esporte também tem relação com o Brasil, e craques do esporte brasileiro aparecem na ponta da língua dos indonésios.
— As torcidas sempre lotam o estádio, são muito apaixonadas, em questão de encontrar um atleta no shopping, pedir para tirar foto, pedir autógrafo. Quando me param, sempre me perguntam primeiro do Ronaldo Fenômeno, que marcou a geração. Tem um menino no meu clube que o nome dele é Zico, tem um que chama Buffon, tem o Beckham. Mas os principais são o Ronaldo, o Ronaldinho Gaúcho e o Neymar — revelou.
Cada vez mais à vontade na nova casa, Fábio espera contribuir ainda mais para o crescimento do futebol na Indonésia e, em especial, revelar um novo talento da posição de goleiros para o mundo.
“O meu maior sonho é ter um goleiro que eu possa olhar uma Copa do Mundo e falar que trabalhou comigo, que eu consegui fazer uma mudança no pensamento dele”.
Fábio Guedes é preparador de goleiros do Bornéo
Rino Akhmad Cahyadi

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